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FJJLP-CE

FEDERAÇÃO DE JIU-JITSU

E LUTAS PROFISSIONAIS

DO ESTADO DO CEARÁ

FJJLP-CE

BRAZILIAN JIU JITSU

HISTÓRIA

 

Iº CAPÍTULO

HISTÓRIA DAS ARTES MARCIAIS, DO JIU JITSU NO JAPÃO – BRASIL - CEARÁ – OS PIONEIROS.

ARTES MARCIAIS: CONCEITOS FILOSÓFICOS E HISTÓRICOS

 

1. A Natureza Humana cria a necessidade do desenvolvimento da Defesa Pessoal: A filosofia de Thomas Hobbes e Jean-Jacques Rousseau.

Para que se possa entender melhor o motivo do surgimento da autodefesa, defesa pessoal, artes marciais ou lutas esportivas, praticadas pelo homem desde o início de vida no planeta terra, deve-se observar a contraposição entre os filósofos Thomas Hobbes e Jean-Jacques Rousseau. Estes filósofos apresentam posições contrastantes em relação ao estado de natureza e a sua transição para o estado civil através do pacto social. Justificando o porquê e como o homem se envolveu em intrigas e disputas, surgindo à necessidade de se defender ou atacar, utilizando o instinto inicialmente, através de equipamentos rudimentares, para então, de forma evolutiva surgirem a criação de armas mais sofisticadas, como as técnicas de lutas marciais.

Hobbes (1974), em seu texto Leviatã, demonstra uma possibilidade nova de ver o estado de natureza. Para ele, os homens eram naturalmente similares. Por mais que um seja forte fisicamente ou espiritualmente que o outro, as diferenças são mínimas para que exijam melhoramentos que outros não possam desfrutar. Desse modo, se um sujeito é capaz de matar com a força por ser superior fisicamente, o outro pode eliminar o mais forte através de emboscada ou consórcio com os demais que sofrem do mesmo problema. 

Com essa igualdade de ação, surge a igualdade de esperança de se atingir os fins. Quando dois ou mais homens tentam atingir o mesmo fim, e esse fim é inatingível para todos ao mesmo tempo, os seres humanos passam a ser inimigos. Dessa forma, se alguém planta, colhe e constrói um lugar conveniente, sem dúvida o outro desejará se beneficiar do trabalho alheio. Por isso, aquele que possui algo deve lutar para manter sua posse e aquele que não tem deve lutar para adquirir.

Essa situação de desconfiança gera nas pessoas a antecipação: atacar para não ser atacado, com a finalidade de garantir o que é seu, seja com a astúcia ou com a força; até se tornar suficientemente grande e forte, para que não haja quem atacá-lo ou ameaçá-lo. Caso um ser humano se contente em atuar apenas na sua defesa, sem visar o aumento de seu poder, ele será incapaz de subsistir por longo tempo. Portanto, esse ato de domínio sobre o homem deve ser aceito por todos. Quando não há um poder capaz de manter a todos um respeito, os homens não tiram prazer algum da companhia uns dos outros, muito pelo contrário, pois, a qualquer sinal de desprezo, os homens passam a defender sua glória, causando discórdia. 

Desse modo, Hobbes (1974) afirma que na natureza há três formas de gerar a guerra: a primeira por competição; a segunda por desconfiança; e a terceira por reputação. A primeira forma os homens utilizam para se tornarem senhores, obter lucro e se tornarem poderosos; a segunda para garantir suas posses e seu poder; e a terceira por ninharias, pequenos insultos que ofendem a si próprio ou seus amigos, familiares, nação ou profissão. 

Esse estado, o filósofo denomina de guerra, já que são todos os homens contra todos os homens. 

Hobbes (1974) ainda insiste em afirmar e exemplificar a desconfiança dos seres humanos com relação aos seus semelhantes. Diz que todos fecham as portas de casa e trancam seus cofres ao sair com medo de serem invadidos e roubados, algumas vezes, mesmo pelos seus próprios familiares e amigos.

No estado de natureza não há leis que definam o que é justo ou injusto. O que torna os direitos dos homens ilimitados, ficando à mercê de suas próprias vontades e paixões. Desse modo, a única maneira de garantir a posse de seus bens é através da força e, não tendo nada além dela que o proteja, a insegurança e a incerteza tornam-se constantes; já que a qualquer momento suas posses e bens podem ser tomados por outros seres humanos.

Rousseau (1973) critica esta visão de estado de natureza feita por Hobbes (1974). Afirma que Hobbes (1974) partiu do homem civil para descrever um homem natural. Isto fez, segundo Rousseau (1973), com que o homem natural possuísse características adquiridas quando se organiza civilmente. Rousseau repele firmemente a ideia de o homem natural ser cruel; para ele, o homem em seu estado primitivo é meigo, quando longe da estupidez dos brutos e das luzes funestas do homem civil. Esse homem, por instinto natural, defende-se do mal e é impedido pela piedade de fazer mal a alguém. 

Para Rousseau (1973), enquanto um único ser humano podia costurar, caçar e garantir sua vida, ele desfrutava de uma liberdade, felicidade e saúde que sua natureza permitia. A partir do momento em que o homem se vê dependente de outro para sobreviver, surgiu à desigualdade, a propriedade e o trabalho tornaram-se necessário. 

No estado de natureza de Rousseau não há propriedade, tudo é de todos, podendo um homem apenas utilizar da terra apenas para plantar o necessário para subsistência. Quando alguém cercou um lote e disse isso é meu, impedindo que outros também usufruíssem da terra, e outro por humildade acreditou em tal afirmação, criou- se a sociedade civil. Quando há desigualdade e as propriedades, de alguns, ultrapassam o necessário, o estado de natureza atinge seu último termo e passa a ser estado de guerra. 

Rousseau diz que, ao chegar nesse ponto, à única maneira de organizar a sociedade é agregar as forças de cada indivíduo para o mesmo objetivo. Essa agregação vem com o intuito de proteger a pessoa e seus bens. A soma de forças cria uma força comum. Como o indivíduo tem a mesma opinião que a força comum, ele continua livre, pois acaba por obedecer apenas a si mesmo. Isso se dá através do pacto social.

Com o contrato social o homem apenas perde a liberdade natural, um direito ilimitado, tudo aquilo que ele podia alcançar pelos seus meios. Porém, ele ganha a liberdade civil e a propriedade de tudo que possui. A liberdade natural tem seus limites na força do indivíduo, e a liberdade civil é limitada pela vontade geral, que inclui a vontade do próprio indivíduo, e garante a posse, independente da força do proprietário. A propriedade é garantida desde que ela represente o necessário para a subsistência do indivíduo. Com essa definição feita, o direito do primeiro ocupante se torna aceitável no estado civil. Tal direito consiste em ocupar uma região não habitada; ocupar apenas o necessário para o seu sustento; trabalhar e cultivar a terra. Dessa forma, todas as propriedades são legítimas.

 Para Hobbes (1974), o pacto entre todos os homens é a única solução para passar de um estado de natureza para um estado civil. Para Rousseau, o contrato se dá dentro de cada indivíduo, na soma das vontades particulares formando a vontade geral. E o indivíduo faz um balanço entre as vontades gerais e particulares. Porém, ambos buscam o mesmo objetivo, garantir a paz, segurança dos homens e de seus bens. 

Embora a questão da dialética sobre o estado de natureza em que o homem se encontrava e a criação do estado tenha controvérsias filosóficas, pode-se afirmar que, de uma forma ou de outra, se fez necessário o desenvolvimento das artes marciais e da defesa pessoal, pois, tanto para se fazer guerra como para se manter a paz e a ordem, observa-se que em alguns momentos, combater, e em outros, disciplinar os cidadãos descontentes. No primeiro caso para dominar o inimigo e no segundo para pacificar os conflitos sociais.

Nos primórdios o homem primitivo procurava utilizar-se de ferramentas das mais rudimentares para realizar importantes funções, como, por exemplo, a caça para alimentar-se e alimentar seu grupo ou tribo, e se defender dos animais predadores e de seus rivais, fosse dentro do grupo ou de outros grupos que cruzassem seus caminhos. Estas ferramentas eram confeccionadas com a utilização de ossos, galhos de árvores transformados em bastões ou porretes, e pedras pontiagudas que provocassem ferimentos graves em seus opositores.

A busca da história da humanidade em sua fase mais primitiva mostra uma estreita relação com a utilização de arma para caça e a defesa de seu território e suas tribos, que podem ser comprovados por achados arqueológicos ocorridos através de incansáveis investigações da vida do homem primitivo. Com isso, conseguiu-se encontrar, em diversos locais do globo, muitas cavernas. Essas continham expostas, em suas paredes, gravuras diversas, onde apresentavam o modo de vida que levavam; então, a comprovação da dedicação a proteção dos seus e a forma de caçar como principal forma de sobrevivência.  

 

2. A origem das Artes Marciais

 A necessidade da criação e sistematização de diversas formas de defesas se tornou extremamente necessária, pois, se tratava da sobrevivência da própria espécie humana.

Em busca de uma conceituação do termo artes marciais, nos deparamos com “Marte” o nome do deus romano da guerra, bem como seu correspondente, “Ares” na mitologia grega. O planeta Marte provavelmente recebeu este nome devido à sua cor vermelha, que por ser a cor do sangue, que, por sua vez, era associado à violência.

Podemos ainda entender como artes marciais os diferentes métodos de defesa pessoal e técnicas militares que têm servido aos diferentes povos para a defesa do território e dos bens pessoais e públicos dos seus cidadãos (NATALI, 1987).

No entanto, nos dias de hoje, são somente chamadas artes marciais, artes de combate ou artes de combate e meditação (LIMA, 1990), as artes de defesa pessoal de origem oriental, como, o Jiu jitsuAikidô, karatê, etc. talvez por possuírem uma codificação mais sistemática, por estarem organizadas de forma hierárquica, e possuírem uma metodologia mais uniforme (NATALI, 1987). 

As origens das artes marciais perdem-se no passado longínquo. Raras são às vezes em que os autores coincidem numa exposição evolutiva dos diferentes sistemas de luta ou modalidades.

Há desenhos gravados nas esfinges contidas nas pirâmides do antigo Egito que retratam homens caçando animais e lutando contra seus rivais, nelas estão expostas técnicas de lutas como se fosse uma sequência previamente estabelecida por um critério racional. Contendo ainda uma sequência de estratégias de luta corpo a corpo, assemelhadas a luta livre, que apresenta imobilizações e chaves tidas como eficientes até os dias atuais.

A contribuição da arqueologia na busca cientifica da origem das artes marciais é uma realidade. Podemos observar através desse prisma arqueológico, que o verdadeiro início da sistematização de técnicas de combate se dá no antigo Egito.   

                   Os vestígios mais relevantes sobre a prática da luta nas mais antigas civilizações, foram encontrados no Egito, em Beni Hassan em pinturas no interior das tumbas de Amenemhat e Kheti (XII dinastia) datadas por volta de 2.000 a.C. Os túmulos dos monarcas de Beni Hassan são conhecidos pelas suas representações de 59 pares de lutadores em ação, mostrando de forma organizada, os mais diversos movimentos e variações de arremessos, preensões e pegadas. É a mais antiga representação gráfica desse tema contendo inscrições (VILLAMÓN, 1999).

Porém parece existir um ponto de concórdia. Os estudiosos das artes marciais são quase unânimes em considerar que se pode encontrar a origem das artes marciais orientais na antiga Índia, embora já não o sejam no que respeita à designação do sistema marcial originário.

No passado longínquo, o que mais favoreceu a criação de técnicas de lutas marciais orientais foram os ataques constantes de bandidos mongóis, elementos fortes e muito bem armados que infestavam a Ásia naquela época, praticando os mais diversos crimes. Então, os monges budistas indianos, indivíduos religiosos e fisicamente muito franzinos, mas de grande conhecimento nas ciências físicas e biológicas, a partir de um determinado momento, decidiram criar um sistema de defesa pessoal que deveria ser eficiente e respeitasse as suas convicções religiosas, onde não se admitia qualquer lesão à vida; seja humana ou animal. Surge daí o embrião das artes marciais orientais.

Na Índia e Paquistão a luta já era difundida e praticada antes da invasão Ariana (1500 a.C) onde provavelmente era usada como forma de exercícios naturais (DRAEGER, 1974). Uma das artes guerreiras mais antigas da Índia, era o Vajra Musti, dominada pelos Jethis, uma casta dos Brahmin, lutadores profissionais que difundiram sua técnica por volta do ano 1000 a.C. em Modhera, norte de Gujarat. O Vajra Musti é citado na enciclopédia Manasollasa de autoria do rei Someshvara (1124 – 1138 a.C.) como origem do Kalaripayit, que nas línguas Tâmil e Malaiala, significa literalmente “treinamento ou prática para o campo de batalha”.

  Tecnicamente é dividida em dois estilos de combate: com e sem armas (REID; CROUCHER, 1983) A luta sem armas é caracterizada por técnicas de saltar e chutar, passos longos e golpes aplicados com as mãos e braços. As técnicas de ataques a pontos vitais são chamadas de Marma adi, literalmente “ensinamentos secretos”. A prova mais evidente de que o Kalaripayit é uma arte tipicamente Indiana, é comprovada pela existência de danças folclóricas e clássicas tradicionais da Índia, que tem evidentes relações com as artes guerreiras, e também pelo fato de atualmente ser praticada pelos camponeses e aldeões, os quais são famosos pelo seu conservadorismo e suas profundas relações com a vida social e religiosa no campo.

 

 

IIº CAPITULO

 

 A ORIGEM DO JIU JÍTSU

 

 

1.  Índia ou Japão?

 

 

Quando procuramos a verdade sobre a origem do Jiu jitsu nos deparamos com muitos relatos que foram passados por gerações sem a devida análise crítica. Em muitos textos escritos por renomados professores e mestres, e por entidades constituídas, como, as Confederações e Federações, há a explícita afirmação que o Jiu jitsu possuí origem indiana, sendo criado pelos monges budistas indianos.

Existem citações distintas para a origem do Jiu jitsu, dentre estas, muitos pontos controversos.

A Confederação Brasileira De Jiu Jitsu (CBJJ) afirma em seu site sobre a origem indiana:

Segundo alguns historiadores o Jiu-jitsu ou "arte suave", nasceu na Índia e era praticado por monges budistas. Preocupados com a auto defesa, os monges desenvolveram uma técnica baseada nos princípios do equilíbrio, do sistema de articulação do corpo e das alavancas, evitando o uso da força e de armas. Com a expansão do budismo o jiu-jitsu percorreu o Sudeste asiático, a China e, finalmente, chegou ao Japão, onde desenvolveu-se e popularizou-se (CBJJ, 2012, s/p).

 

No mesmo sentido a Confederação Brasileira de Jiu Jitsu Esportivo (CBJJE) posta em seu site:

 

Segundo os antigos e o conhecimento verbal, esta arte (Jiu-Jitsu), teria se iniciado na antiga Índia. Em especial pelos monges. Segundo os princípios religiosos os monges não podiam usar de agressividade e sim desvencilhar de um súbito ataque ou mesmo imobilizar o assaltante em suas peregrinações pelo mundo afora. (CBJJE, 2012, s/p).

 

Na apostila do professor Sergio Vita (2012):

O jiu-jitsu foi criado no norte da Índia, algumas milhas em cima de Benaresà mais de 500 anos A.C. Os Monges Budistas de Longínquos Monastérios, obrigados a percorrer longas caminhadas em estradas infestadas de bandidos para propagarem a sua fé, eram constantemente agredidos e roubados. Os Monges Indianos, apesar de não desejarem entrar em confrontos físicos, o que era contra os seus princípios, principalmente porque viviam para a contemplação divina, não podiam continuar a serem vítimas desses ataques. Como foi referido anteriormente, o jiu-jitsu foi criado na Índia, por Monges Budistas. A sua disseminação pela Ásiaviria séculos mais tarde, quando reinou na Índia Devanampriya Priydarsim, conhecido como rei Asoka – 2 séculos depois de Buda. Asoka, que também era budista, desenvolveu milhares de mosteiros dentro e fora da Índia. Desta maneira, o budismo e, com ele, o jiu-jitsu atingiram o Ceilão, a Birmânia, o Tibete, o Sião e todo o Sudeste da Ásia, e posteriormente à China chegando finalmente ao Japão onde cresceu e tomou um grande impulso, e migrando, de seguida, para o Ocidente. (VITA, 2012, p.02).

 

 

Este tema é gerador de controvérsias. O Jiu jitsu possui sua origem na Índia ou no Japão? Aprendemos com nossos professores e mestres, desde cedo ao ingressar nas escolas de Jiu jitsu, que a origem é indiana. Isso nos faz levar a reflexão de que existem pontos discutíveis na história do Jiu jitsu, e saber sua origem se torna fundamental para nosso o estudo.

Segundo Draeger, “o jujutsu em si é produto japonês”. Para ele, atribuir ao Jiu jitsu origem indiana seria o mesmo que atribuir ao inventor da roda o desenvolvimento dos carros modernos (DRAEGER, 2007 p. 113).

Na obra escrita por autores da família Gracie, de autoria de Royce e de Renzo Gracie, há uma discussão sobre a questão das origens do Jiu-jitsu.

O próprio Grande Mestre Hélio Gracie não tem convicção em relação a  origem do Jiu jitsu, pois, na obra intitulada Gracie Jiu-jitsu (2007, p. 09), Afirma: “Dizem que o jiu-jítsu se originou nas montanhas da Índia há 2500 anos. Supostamente se difundiu pela China e, por volta de 400 anos atrás, estabeleceu-se no Japão, onde encontrou as condições apropriadas para se fortalecer”.

Desta feita, e por meio de nossos estudos e pesquisas na literatura, formulamos uma teoria: O Jiu jitsu tem sua forma embrionária na Índia, mas é sistematizado e evoluído como arte de combate no Japão.

A própria terminologia da palavra Jiu jitsu ou Ju jutsu é de origem japonesa, entretanto o processo de desenvolvimento da referida luta leva a crer, que a essência ou o embrião do Jiu jitsu, surge na Índia, porém sua sistematização e evolução se dão no arqupélago japonês.

Fazendo um parâmetro com o desenvolvimento da espécie humana, ou seja, quando vamos pesquisar a origem do homem, temos que compreender que a origem não se dá no homem Erectus ou no homem de Neanderthal, e sim na evolução do Australopitecus. Sendo assim, se deve proceder de forma semelhante na busca pela origem embrionária do Jiu jitsu, chegando a conclusão que esta origem, sem dúvida, está no oriente, precisamente na Índia, a nivel embrionário, porém seu nascimento como forma de combate, é verdadeiramente no Japão Feudal.

 

2. O Jiu Jitsu e sua Filosofia

 

As artes marciais japonesas como o antigo Jiu-jitsu têm como principio norteador o conceito de suavidade. Esse conceito aplicado à arte marcial propõe que se use a força dos oponentes contra eles mesmos, ou “ceder para vencer” que é o bordão típico dos praticantes de Jiu jitsu.

Proseguindo na busca da origem do Jiu jitsu nos deparamos com uma lenda bem antiga, um monge meditando nas montanhas, teve uma ideia súbita quando viu que pequenos ramos eram curvados pelo peso da neve, no entanto não quebravam, mas se inclinavam, deixando a neve desprendessem deles e em seguida retornavam a posição natural. Com isso, o monge logo percebeu que uma força superior podia ser vencida pela flexibilidade e adaptabilidade.

Aqui nos encontramos com o princípio base e norteador de todos os fundamentos filosóficos do Jiu jitsu, entendidos por muitos e imortalizado, através da frase ensinada pelos grandes mestres, ou seja, “ceder para vencer”. Podemos entender como princípios, por serem sedimentos, pilares, travessões mestres, afluentes sobre os quais todo um sistema de conhecimentos teóricos e técnicos práticos nascem e desenvolvem-se. 

Guimarães (2006) relata que os ensinamentos de Koma a Carlos Gracie, foram aperfeiçoados por este e surgiram novas técnicas sem fugir dos fundamentos da luta, transformando-a numa espécie de xadrez humano, com base em alavancas na qual um homem fraco poderia derrotar um homem forte, desenvolvendo assim o “Gracie JiuJitsu” o qual Carlos teria ensinado ao Hélio Gracie e seus irmãos, porém, Hélio Gracie é frequentemente considerado o criador efetivo do Gracie Jiu-Jitsu, que devido a seu físico franzino, derrotava os adversários com sua técnica.

Vale ressaltar que na formulação do Jiu jitsu foram necessários grandes conhecimentos, tais como: leis físicas (as alavancas, ponto de apoio, equilíbrio, centro de gravidade, etc.); biológicas (pontos sensíveis, pontos vitais, anatomia humana, nesta em especial os conhecimentos das articulações e de asfixia mecânica); e, psíquicas (equilíbrio psicológico, principalmente nas situações de tensão, concentração, determinação, etc.). Nesta engenharia estavam envolvidas ainda técnicas de respiração, valores morais e éticos, como, honra e lealdade entre muitos outros.

Segundo Thomas (2000) o Jiu-jitsu é um esporte intelectualizado devido sua complexidade e considerada a luta mais abrangente que existe, pois além de apresentar uma grande variedade de técnicas, ainda apresenta uma complexidade em relação às valências físicas, pois necessita de todas elas ao mesmo tempo e em todos os momentos da luta.

A filosofia no Jiu jitsu segundo relatos do Prof. Sá (2012):

 

A filosofia do Jiu jitsu é um caminho em direção ao autoconhecimento, que promovido por sua técnica de domínios espetaculares sobre os oponentes, muitas vezes esses oponentes se fazem mais fortes fisicamente, levando-nos a refletir sobre a capacidade interior que cada um de nós pode desenvolver, então, o Jiu jitsu nós leva a reflexão, desde que seja ministrado nessa direção, por professores capacitados e comprometidos com a moral e a ética, evidenciando a honra e os bons costumes, e que objetivem a formação do ser integral e não apenas com a concepção de produzir um estereótipo de mero competidor, vazio na maioria das vezes.

 

Hélio Gracie define a verdadeira filosofia do Jiu jitsu (GRACIE 2007, p.20).

O fato de eu não ter sido um sujeito fisicamente forte foi, na verdade, uma bênção. Minha fraqueza física fez-me pensar no princípio de alavanca de Arquimedes, que diz: “Dê-me uma alavanca e um ponto de apoio, e eu moverei o mundo”.

 

 

3. O desenvolvimento do Jiu Jitsu no Japão

 

Embora o Japão possa ter sido o último país asiático a adquirir conhecimento desta forma de defesa sem armas, lá é que as artes marciais se desenvolveram e se popularizaram de uma maneira incrível (ROBBE, 2007).

No Japão, o Jiu jitsu, chamado de “Arte das Técnicas Suaves”, ou simplesmente “Arte Suave”, encontrou as condições culturais para evoluir e aprimorar suas técnicas, dando origem a mais de 113 estilos diferentes de Jiu jitsu.

Com o passar dos anos o Jiu jitsu se tornou a maior arte marcial japonesa e a maior riqueza do Japão. Na época em que predominava o feudalismo, os senhores feudais possuíam, para sua proteção, samurais, exímios guerreiros que tinham no Jiu-Jitsu sua luta corpo a corpo. Com o Jiu jitsu os samurais se tornaram poderosos e invencíveis perante os ocidentais, apesar da grande envergadura que possuíam e possuem (YAMASHIRO, 1993; GRACIE, 2001).

Naqueles tempos cruéis, uma centena de clãs lutava pelo poder supremo do Japão. Elas se exercitavam em todas as artes marciais, chamadabudô, guardando em segredo suas técnicas. Os Samurais aprendiam a usar a espada, o dardo, o arco e o Jiu jitsu ou o combate sem armas. Eles tinham seu próprio código de honra “O BUSHIDO”.

Com o início da revolução industrial houve a abertura dos portos japoneses ao Ocidente e, com isso, uma enorme curiosidade em descobrir a cultura do povo oriental e, obviamente, o segredo das técnicas marciais, já tão faladas no ocidente.

A chegada de um navio norte americano, o Comodoro Perry, em 1854, abriu para o mundo as portas do Japão. O isolamento deliberado do Japão terminou. Logo se verificou que as espadas não podiam enfrentar as armas de fogo, até então quase desconhecidos dos japoneses.

Neste ponto, surge a preocupação japonesa em preservar sua cultura, assim como o conhecimento de suas armas e técnicas de guerra (YAMASHIRO, 1993; ROBBE, 2007).

Jiu jitsu é fragmentado e, então, começam a ser exportado, o Judô, o Karatê, o Aikidô, entre outras técnicas que se desenvolveram e se tornam grandes lutas a partir do Jiu jitsu. Então, as técnicas secretas de esporte passam a ser preservadas pelo imperador japonês, que decretou crime contra a pátria Japonesa ensiná-lo fora do Japão (GURGEL, 2003).

As antigas artes marciais começaram a desaparecer e as escolas secretas a fechar, especialmente quando o uso de espadas foi proibido em 1876.

 

IIIº CAPITULO

CONDE KOMA -  Mitsuyo Maeda

 

O maior expoente do Jiu jitsu mundial, Mitsuyo Maeda, foi insuperável em quase duas décadas em que esteve ativo período esse, compreendido entre o inicio do século passado até o final de sua segunda década (GRACIE, 2008).

Nasceu em 18 de novembro de 1878, na ilha e Província Japonesa de Aomori, cidade de Hirosaki e vila de Funazawa, onde aprendeu a lutar tenshinJiu jitsu (GRACIE, 2008).

Aos dezoito anos mudou-se para a capital japonesa, Tóquio, matriculando-se em seguida na Kodokan, escola de Jiu jitsu moderno, fundada porJigoro Kano com o nome de Judô (VIRGILIO, 2002).

Na Kodokan teve como seu professor, este, dentre os professores, era o de menor físico, pois, com isso, seria mais fácil acreditar que o tamanho não era preponderante para o domínio das técnicas e dos combates. Tomita era um professor faixa preta quarto grau na escala de graduação da Kodokan e tomou Maeda sob os seus cuidados (VIRGILIO, 2002).

Segundo preconiza Tsunejiro Tomita Reila Gracie em sua obra “Carlos Gracie criador de uma dinastia” (GRACIE, 2008):

 

Como parte da estratégia do governo japonês para difundir o judô internacionalmente, em 1904 Maeda começou uma carreira internacional, viajando para os Estados Unidos em companhia de seu mestre Tsujeniro Tomita. Juntos, eles se exibiram na Academia de West Point e também na Casa Branca, para o presidente Theodore Roosevelt.

 

Ao terminar a luta em West Point, Maeda e Tomita foram desafiados por um espectador, jogador de futebol americano e lutador de wrestlingTomita, já com mais de 40 anos, aceitou o desafio e foi derrotado pelo desafiante. Maeda subiu imediatamente ao ringue e desafiou o americano, impondo-lhe uma derrota.

Tomida e Maeda se desentenderam e resolveram seguir caminhos diferentes – Tomida voltou para o Japão e Maeda continuou na América, onde todas as suas tentativas de abrir academias de jiu-jítsu foram malsucedidas. Maeda decidiu então lutar por dinheiro, o que era proibido pela Kodokan, que o expulsou (GRACIE, 2008).

Outros lutadores haviam sido enviados pela Kodokam a outros países, tais como México, Honduras, Costa Rica, Panamá, Colômbia, Equador, Peru, Chile, Argentina e Uruguai. Nessas viagens, esses lutadores encontraram outros japoneses praticantes de Jiu-jítsu. Essas peregrinações se deviam ao fato de que muitos praticantes de Jiu-jítsu tradicional não aceitavam as novas regras impostas ao esporte e preferiram imigrar para ensinar sua arte em locais exóticos(GRACIE, 2008).

Apesar do interesse de seu presidente pelas artes marciais japonesas, reinava nos Estados Unidos um forte sentimento antinipônico, o que fez com que muitos japoneses emigrassem para Cuba e para o norte do Brasil, sobretudo para Manaus e Belém (GRACIE, 2008).

 

IVº CAPITULO

JIU JÍTSU NO BRASIL

 

1.  A chegada ao Brasil

 

Existe uma controvérsia sobre a chegada de Maeda no país, alguns autores adotam datas diferentes para a sua chegada, como Calleja (1979) que cita final da década de 1920 e início de 1930, Virgílio (2002) afirma ter sido início da década de 1920, Soares (1977) determina 1922, junto com Hunger et al. (1995).

Recentemente, porém, em artigo na revista Judô, Rildo Heros (1997), provou por meio da cópia do passaporte de Maeda cedido por Gotta Tsutsumi(Presidente da Associação Paramazônica Nipako de Belém) que sua chegada se deu exatamente no dia 14 de novembro de 1914. Teria sido em Porto Alegre que Maeda teria ganho o apelido de Conde Koma, devido a sua elegância e semblante sempre triste.

Segundo Gracie (2008, p. 37):

Maeda adotado o pseudônimo Conde Koma, e foi com esse nome uma abreviação de Komaru, isto é “confusão” – que chegou ao Brasil em 1914, acompanhado de Inomata. Os dois excursionaram por vários estados até chegarem a Manaus, onde foram bem-recebidos, pois o jiu-jítsu não era desconhecido na cidade, que já recebera oito anos antes os célebres lutadores, também japoneses, Akishima e Suito Ki.

 

Koma media apenas 1,64 metros de altura e pesava 70 quilos, mas era dotado de grande força física. Seu estilo ao lutar era agressivo – usava chutes e socos para levar o adversário ao solo, onde rapidamente o finalizava com uma chave ou um estrangulamento. Dois dias após sua chegada, em 18 de dezembro de 1915, Maeda Koma faz sua primeira apresentação no teatro Politheama, demonstrando técnicas de estrangulamentos, torções das articulações e chaves de braço e perna, antes de lançar um desafio à platéia. Em pleno Ciclo da Borracha, Manaus e Belém eram cidades prósperas, que atraíam aventureiros de toda a parte, e não faltaram lutadores para responder aos desafios (GRACIE, 2008).

Entre outros eventos, Maeda derrotou o boxeador Adolfo Corbiniano, de Barbados, e os especialistas em luta greco-romana Nagib Assef e Severino Salles, para desespero de alguns barões da borracha que haviam feito apostas milionárias contra aquele japonês abusado e atarracado (GRACIE, 2008).

Maeda promoveu ainda um campeonato de Jiu jitsu entre japoneses, vencido por seu colega Satake, que acabou ficando em Manaus com Laku e lecionando no Rio Negro Atlético Clube, enquanto Maeda seguia viagem para Belém (GRACIE, 2008).

 

2. A família Gracie e o Jiu jitsu

 

O primeiro contato da família Gracie com o Jiu jitsu, se deu através de Gastão Gracie, pai de Carlos, George, Gastão, Osvaldo e Hélio. Gastão teria levado o filho Carlos para assistir uma exibição publica do Conde Koma em Belém, no Teatro da Paz. Carlos teria ficado maravilhado, devido aos movimentos técnicos exibidos contra a força bruta. Era tudo que ele queria uma técnica que anulasse a sua desvantagem de peso e força em relação aos seus inimigos(GRACIE, 2008).

Mitusuyo Maeda decidiu abrir um curso de Jiu jitsu, foi ai então, que Gastão decidiu matricular Carlos para praticar o Jiu jitsu de Koma, assim teria nessa atividade uma válvula de escape resolvendo seu problema de agressividade. Assim, Carlos, aos quinze anos, inicia o primeiro contato direto com o JiujitsuMaeda visando retribuir favores a Gastão aceitou, ensinar a Carlos (GRACIE, 2008).

O convívio diário entre Maeda e Carlos Gracie durou cerca de um ano, até a viagem do japonês para Liverpool, em 1917. Nesse convívio onde as aulas aconteciam na residência do ilustre Mestre, que observava em Carlos um aluno exemplar, mostrando disciplina inesperada em um adolescente antes rebelde e irascível. Ensinou-lhe técnicas muito mais sofisticadas do que as transmitidas aos demais alunos. Depois das aulas, Koma dizia a Carlos que ficasse para aprender detalhes sobre golpes (GRACIE, 2008).

Carlos passou a treinar com o auxiliar de Koma, Jacinto Ferro, que dava aula aos irmãos Oswaldo e Gastãozinho. Quando Koma retornou a Belém, Carlos voltou a ter aulas com ele. As aulas com o Conde Koma duraram três anos (GRACIE, 2008).

Vale salientar que o que Carlos Gracie aprendeu com Koma, não era o Jiu jitsu tradicional do Japão, como preconiza GRACIE (2008, p.40).

 

Mas o que Carlos aprendeu com o Conde Koma já não era o Jiu jitsu tradicional do Japão; sendo Koma um lutador de carreira internacional, seu Jiu jitsu não era teórico, como aquele praticado no Japão pelos samurais decadentes nas ultimas décadas do xogunatoTokugawa nem pela própria Kodokan de Jigoro Kano, que modificara as regras da luta para torna-la cada vez mais esportiva. Komaensinou a Carlos o que considerava realmente eficiente, além de alguns macetes de luta, como: nunca dar as costas para o adversário, nunca se deixar montar e nunca permitir que o adversário atinja uma posição de predominância absoluta.

 

 

Virgílio (2002) explana sobre a família Gracie:

 

Na historia dos nossos esportes os irmãos Gracie são capitulo isolado. O que eles fizeram para aclimatar o Jiu jitsu no Brasil, para provar a superioridade deste método de defesa individual sobre todos os outros, constitui um exemplo impar de perseverança e de bravura. Hélio, Jorge, Gatão e Osvaldo, orientados por seu irmão mais velho Carlos, derrotaram mestres de luta livre e capoeira temíveis, boxeadores e massas-brutas habituados a desmoralizar o adversário com a simples apresentação do corpo semidespido. Isso seria notável, mas não seria tudo, se eles não houvessem vencido professores nipônicos de Jiu jitsu, nascidos na terra berço da diabólica luta, criados na pratica dos seus golpes, tão felinos, tão anatômicos, tão humanos em seu objetivo de paralisar a ofensa sem ferir o ofensor (VIRGILIO, 2002, p. 94/95).

 

Ainda Henrique Ponguetti, sobre Carlos e seus irmãos, (VIRGILIO, 2002, p. 95)

 

Carlos fez de seus irmãos lutadores admiráveis, mas, para beneficio nosso fez também deles grandes instrutores de Jiu jitsu. Só conheço a escola de Hélio (o mestre perfeito), frequentadíssima por homens de todas as idades e de alta situação só que ali vão buscar, mais ainda do que incomparável arma de defesa: a saúde e a moral. Hélio aprimorou-se no estudo profundo dos golpes, tornou-se em certos casos inovador; mas como mestre ampliou os seus conhecimentos de fisiologia humana para resguardar os seus alunos idosos dequalquer surpresas. Um espetáculo admirável de sua academia é a aula suave de Jiu jitsu para esses homens não mais jovens, mas jovens bastante para reagir contra o poder dissolvente da vida sedentária. O Jiu jitsu integral est ara ao alcance pouco depois quando a elasticidade dos membros receberem a aprovação do mestre.

 

Os ensinamentos de Koma a Carlos foram aperfeiçoados por este e daí surgiram novas técnicas sem fugir dos fundamentos da luta, transformando-a numa espécie de xadrez humano, com base em alavancas na qual um homem fraco poderia derrotar um homem forte, desenvolvendo assim o “Gracie Jiu-Jitsu”. Por outro lado, Carlos teria ensinado a Hélio Gracie toda a sua técnica na tradição oral surgida na relação com Koma. Porém, Hélio Gracie é frequentemente considerado o criador efetivo do Gracie Jiu-jitsu, que devido a seu físico franzino, derrotava os adversários com sua técnica (GUIMARÃES, 2006).

Segundo Hélio, Carlos foi o maior difusor do Jiu-jitsu, porém ele, devido a sua dedicação, era o melhor entre os irmãos. Ele era incansável e não se cansava por não usar força, apenas técnica. Hélio transformou o Jiu-jitsu dando-lhe uma forma mais agressiva.

No final da década a família Gracie mudou-se para o Rio de Janeiro e, em 1930, Carlos Gracie, com 28 anos abriu a primeira academia de Jiu-jitsu daquela cidade, no Bairro do Flamengo. Neste estágio, Hélio acabou por se transformar em grande campeão em lutas em estádios e praças públicas, com Carlos atuando como seu “manager”. George Gracie e seu irmão Hélio eram os principais lutadores da família (GUIMARÃES, 2006).

George Gracie foi o iniciador do Vale-Tudo ao derrotar o homem mais forte do Rio de Janeiro na época, Tico Soledade, campeão absoluto de levantamento de peso e queda de braço, além de ser conhecido por sua valentia (GUIMARÃES, 2006).

Na década de 1940, depois do estrondoso sucesso anterior, o Jiu jitsu passou por uma fase de calmaria no Rio de Janeiro, já que Carlos Gracie foi viver em Fortaleza, Hélio encerrou precocemente sua carreira de lutador e George deixou o Rio para viver em Porto Alegre, Bahia e depois São Paulo (GRACIE, 2008).

Através desses desafios por todo o território brasileiro, a família Gracie foi ganhando muita visibilidade e aumentando o número de alunos e praticantes em suas academias. Foi a época também que o Rio de Janeiro passou a ser um grande centro de lutadores de Jiu jitsu, do Gracie Jiu jitsu ou Jiujitsu brasileiro, com um aumento considerável de academias e professores por toda a cidade (GRACIE, 2007).

Só que esse aumento de visibilidade e popularidade ocorreu em primeira instância na cidade do Rio de Janeiro e, com o passar do tempo, em outros lugares do Brasil. Obviamente, para um esporte que tem a pretensão de ser popularizado e ser visto por muitas pessoas ao redor do mundo, era preciso que oJiu jitsu fosse para outros países. Foi então que, sobretudo a partir da década de 1990, ocorreu a expansão do Jiu jitsu para várias partes do mundo, principalmente os Estados Unidos (GRACIE, 2007).

 

Vº CAPITULO

 JIU JÍTSU NO CEARÁ

 

1. A família Gracie no Ceará

  As fontes deste capítulo foram exclusivamente retiradas da obra “Carlos Gracie - O Criador de uma dinastia” de autoria de Reila Gracie (2008), pois, como integrante da família Gracie, a autora citada teve acesso a relatos e documentos incontestáveis sobre a história do Jiu jitsu no Brasil.

 Carlos Gracie morava no Rio de Janeiro, mas, em busca de um clima mais saudável para criar os filhos, parte para o Ceará (década de 1940) pretendendo investir no ramo imobiliário. Leva, consigo sua mulher Geni e os cinco filhos mais velhos.

Na primeira metade da década de 1940, Fortaleza era uma cidade encantadora, com poucos bairros, algumas linhas de bondes e belas residências, cuja influencia francesa art déco conferia a tudo um ar romântico e aristocrático.  A população era pacata beirava 200 mil habitantes, a sociedade era fechada e conservadora.

Fazia ainda parte dos planos de Carlos atrair os cearenses para a prática do Jiu jitsu, mas primeiro iria organizar a família, questões de moradia, escolas das crianças entre outras mais.

Carlos dava aulas de Jiu jitsu para os filhos do banqueiro e imobiliário João Gentil que o orientou a adquirir um sítio em Pacotí, na serra de Guaramiranga.

Carlos Gracie também dava aulas particulares a Policia Especial. Carlos promoveu uma demonstração de Jiu jitsu, a pedido dos dirigentes do Clube Praia do Leme, cujo sucesso abriu uma nova perspectiva para a difusão da luta na cidade. Como parte da programação foram abertas inscrições para um curso de Jiu jitsu ministrado por ele, inteiramente gratuito, patrocinado pelo clube, a ser realizado na serra de Pacotí. Os melhores candidatos seriam escolhidos mediante um teste de capacidade, cujos critérios exigiam elasticidade e agilidade, além de observação pessoal e subjetiva de Carlos.

Pedro Hemetério, um dos candidatos inscritos, não possuía conhecimentos de Jiu jitsu e muito menos da família Gracie. Aos 20 anos de idade, pesando 65 quilos e medindo 1,68 metros, Pedro Hemetério nunca imaginou-se um lutador. Além dele, mais setenta e seis candidatos fizeram o mesmo. Todos sentaram em torno de um tatame em que Carlos explicou o Jiu jitsu, demonstrou alguns exercícios de elasticidade e agilidade e pediu que todos repetissem. Dos setenta e sete apenas seis conseguiram.

Carlos afirmou a imprensa da época que estava satisfeito, pois, embora o número fosse reduzido, os rapazes possuíam as qualidades necessárias para serem campeões, mas apenas Luciano Porto e Pedro Hemetério viajaram para a Serra de Guaramiranga, onde os treinos seriam realizados, já os outros, não poderiam acompanhar Gracie por problemas pessoais.

Em Pacotí, Carlos submeteu os alunos a treinamentos rigorosos e intensos. Pedro Hemetério jamais esqueceu o que Carlos lhe dissera “Hemetério, caso você não perca esse interesse, daqui a alguns anos você será o campeão brasileiro de Jiu jitsu.” Pedro Hemetério passou a treinar mais ainda e tornou-se um dos maiores e mais dedicados praticantes do Jiu jitsu.

Findo o período do curso, Carlos faria uma exibição com o aluno na Sede do Clube Azulina, na Praia de Iracema. Pedro Hemetério fez uma exibição impressionante de sua flexibilidade e em seguida, com o mestre, exibiu seus conhecimentos de defesa pessoal contra faca, punhal, bastões, socos e agressões. Era a primeira vez que os cearenses tomavam conhecimento dos recursos técnicos do Jiu jitsu.

Entusiasmado com o novo aluno, Carlos propõe a Pedro Hemetério continuar seu aprendizado em Pacotí, mas, desta vez, sem patrocínio. Ele aceitou prontamente, porém, como não possuía boa condição financeira, recuou. A família de Hemetério teria arranjado um emprego no comércio de Fortaleza para o mesmo. Carlos, então, ofereceu metade do seu salário como instrutor da Policia Especial do Ceará para Pedro Hemetério se tornar seu auxiliar. Essa proposta foi prontamente aceita.

Jiu jitsu aos poucos se tornava moda em Fortaleza. Diante de tal popularidade, o Ceará Esporte Clube montou um centro de Jiu jitsu e convidou Carlos Gracie para dirigi-lo. Carlos levou Pedro Hemetério como professor adjunto. Nessa nova academia, o Jiu jitsu passou a ser ensinado a alunos de todas as idades, o que levou pais e filhos a dividirem o tatame, entre eles o próprio presidente do clube, e seu filho de nove anos. Na festa de inauguração, Carlos exibiu lutas entre seus alunos da Policia Especial, da Força Policial e da Guarda Civil de Fortaleza. Embora já atuassem há muito tempo como instrutores deJiu jitsu da Secretaria de Segurança de Policia e Segurança Publica do Ceará, só em 1946 a contratação de Carlos Gracie e de Pedro Hemetério foi oficializada por meio de um decreto de lei federal expedido pelo interventor do estado.

Em 1948, Carlos decide convidar seu irmão Hélio Gracie para vir a Fortaleza, pois, seria sua estratégia para levá-lo de volta aos ringues. Logo ao chegar a teve que colocar o quimono, pois, tinha uma programação armada. A luta principal seria de Hélio com algum desafiante, mas Carlos também participara do evento com os alunos Pedro Hemetério e João Gentil Junior, fazendo demonstrações. Além disso, teriam mais 16 atletas que participariam de oito lutas. A bilheteria seria destinada a Casa do Jornalista do Ceará.

Esse feito teve grande repercussão na imprensa local, como apresentada na manchete do jornal Correio do Ceará, no dia 22 de janeiro de 1948:GRANDE ESPETÁCULO DE JIU JITSU NO PALCO DO TEATRO JOSE DE ALENCAR – HELIO GRACIE desafia qualquer adversário – mesmo que venha armado de faca ou cassete ou que seja capoeirista ou boxeadorQuem tem coragem de lutar contra um homem desarmado? Hélio Gracie, de mãos livres, oferecerá 10 mil cruzeiros a quem o vencer no palco do Teatro Jose de Alencar.

Entre Carlos e Hélio não havia espaço para rivalidades, nem disputas mesquinhas, principalmente a respeito do lugar que eles ocupavam na hierarquia do Jiu jitsu. Mesmo depois de consagrado e famoso Hélio não se importava em ser visto como o melhor discípulo do irmão e deixava bem claro nas entrevistas que concedia. Desde sua estada anterior ele já afirmava categoricamente aos jornais de Fortaleza: “Carlos é o legitimo e perseverante introdutor e divulgador do Jiu jitsu puro em nosso país.”   

 

2. Os Principais Pioneiros

 

    A seguir tentaremos descrever os principais pioneiros da prática do Jiu jitsu no Ceará.

 

3. Professor Pedro Hemetério.

 

Em entrevista concedida no site institucional do Centro de Treinamento e Esportes Sete de São Paulo (CTE7, 2012), Pedro Hemetério discorre sobre sua vida e o Jiu jitsu. Natural do Ceará, conheceu Carlos Gracie que, em 1939, oferecera um curso grátis pelo Clube Praia do Leme. Cerca de setenta e seis rapazes fizeram testes. Sobraram seis e, entre eles, lá estava Hemetério. Carlos observou naquele rapazinho, de sessenta e cinco quilos, como um futuro campeão.

Existe a controvérsia em relação às datas do curso ministrado por Carlos Gracie, pois, em duas entrevistas diversas pode-se observar a divergência uma afirma que o curso de seleção teria ocorrido em 1939 e a outra em 1941. Entrevista publicada no JORNAL FPJJ (2009, p. 03).

 

Como foi seu primeiro contato com o jiu-jitsu?

R.: Eu não praticava nenhuma arte marcial, apenas gostava de fazer muita ginástica, principalmente na praia. Em 1941, recebi um convite do Sr. Péricles Moreira da Rocha, mais conhecido como “Pequim”, presidente do Praia Clube, para participar de um curso ministrado por Carlos Gracie. Como houve muito interesse, havia mais de 77 candidatos, foi feito um teste para saber quais teriam condições físicas. Apenas eu e mais seis conseguimos a vaga para o curso de 3 meses numa cidadezinha do interior chamada Pacutí. Depois, voltamos para Fortaleza e o Carlos me convidou para fazer demonstrações de jiu-jítsu no Praia Clube.

 

 

Na entrevista publicada no site do Centro de Treinamento e Esportes Sete de São Paulo (CTE7, 2012) prosseguem seus relatos. SegundoHemetério, que aprendia golpes com uma facilidade de espantar; era mal comparado, um "papel carbono". O professor ensinava e ele, Pedro, aplicava a "chave", com perfeição, poucos minutos depois. Acompanhando Carlos Gracie, foi treinar na Serra de Guaramiranga, onde passou três meses, recebendo duas aulas diárias.

Mais tarde, auxiliou Carlos, na Polícia Especial do Ceará, onde o mais velho dos Gracies ensinava Jiu-Jitsu. Depois, com a vinda do mestre para o Rio, ocupou o lugar de instrutor na Polícia. Em 1950 Hemetério foi convidado a participar do campeonato carioca. Terminou em primeiro lugar, empatado comCarlson Gracie. Desistiu da decisão deixando o título nas mãos de Carlson. “Estava bem entregue e eu satisfeito com o segundo lugar. Passei dois anos entre os Gracies, aprimorando minha técnica. É de fato, o Jiu-Jitsu mais perfeito do Brasil”.

Poucos lutadores, no Brasil, possuem a credencial de Hemetério. Enfrentando os maiores lutadores brasileiros e estrangeiros, conseguiu espetaculares vitórias, jamais foi vencido. Saiu de sua modalidade de esporte para enfrentar, na luta livre, o fortíssimo Shoubert, lutador húngaro, que pesava mais de 90 quilos. Em menos de 60 segundos conseguiu a vitória.

 Quando um grupo de lutadores japoneses desembarcou no Brasil realizando desafios, entre eles o famoso campeão Kimura, Hemetério foi à Paraíba para desafiar o mais técnico deles. Entretanto os japoneses exigiram uma pré prova para o jovem cearense: enfrentar Martins, lutador filho de japoneses e, na época, campeão da colônia japonesa de São Paulo, faixa preta de Judô, 3º Grau. Resultado da luta: desistência de Martins e vitória deHemetério.

 Ainda enfrentou o gigante Olguim. Peso de Hemetério: 66 quilos, Olguim: 116. Depois de quinze minutos o adversário de Hemérito desistia da peleja.

Enfrentou Passarito, praticante de Judô que, não tinha naquela ocasião, o conhecimento que possui hoje. De qualquer maneira foi vencido em apenas dois minutos.

Em 1952, Pedro Hemetério torna-se o primeiro aluno de Hélio a abrir uma academia própria fora do Rio, localizada em Fortaleza-CE. Localizada a Rua Governador Sampaio próximo da Igreja da Sé. De acordo com a matéria publicada no Atlas Esporte no Brasil (GUIMARÃES, 2006, p.10.42):

 

Em 1952, Pedro Hemetério torna-se o primeiro aluno de Hélio a abrir uma academia própria fora do Rio, localizada em Fortaleza- CE. Gastão Filho montou uma academia em São Paulo-SP, sendo ajudado por Pedro Hemetério, que troca o Ceará por S.Paulo, passando a ensinar na capital paulista. Pedro Hemetério apoiado por alguns alunos monta por volta dos meados dos anos de 1950 sua academia própria em São Paulo. O Jiu-Jitsu paulista viveu nesta época uma empolgação devido aos desafios de vale-tudo. Depois esta movimentação restringiu-se ao Rio de Janeiro-RJ. São Paulo continuou com um trabalho isolado restrito a quatro academias: Octávio Albuquerque, Oswaldo Canivalle, Pedro Hemetério e Orlando Sandiva, nomes base do Jiu-Jitsu paulista.

 

Posteriormente Gastão Filho montou uma academia em São Paulo/SP, sendo ajudado por Pedro Hemetério, que troca o Ceará passando a ensinar na capital paulista. Pedro Hemetério apoiado por alguns alunos funda, por volta dos meados dos anos de 1950, sua academia própria em São Paulo. O Jiu-Jitsu paulista viveu nesta época uma empolgação devido aos desafios de vale-tudo. 

Segundo relatos do Professor Sá (2011) e do Dr. José Olavo (2012), Pedro Hemetério teve no Ceará alunos de destaque, entre eles: Ciro, que se mudou para Salvador/Bahia; Herondino que manteve uma escola até certo período; Tony Magalhães que teve destaque especial, pois tornou-se oficial daPolicia onde desenvolveu treinamentos de Defesa Pessoal aos Policiais Militares do Ceará; Biusse que migrou para Natal, no Rio Grande do Norte; e Dantas, conhecido como Maranguape, que manteve sua escola Toxican por muito tempo, passando para o Judô posteriormente.

Embora com grande conhecimento no Jiu jitsu, seus alunos não conseguiram fixar o Jiu jitsu no estado, pois, uns teriam se deslocado para outras regiões e outros migraram para o Judô, que vinha se tornando uma modalidade popular, graças ao apelo olímpico quase irresistível.

 

4. Professor Nilo Veloso

 

Os relatos de alunos destacados do Professor Nilo Weber Veloso, dentre eles o Professor Milton Moreira (2012), Dr. José Olavo (2012) e o Professor Sá (2011) foram utilizados neste tópico do estudo.

Nilo Veloso, alto funcionário da Caixa Econômica Federal, foi transferido de Salvador, Bahia, para Fortaleza, trazendo consigo o Jiu jitsu aprendido com o Professor George Gracie. Fundou sua Academia de Jiu jitsu na Avenida Duque de Caxias, nº 773, altos, Centro de Fortaleza, entre as ruas Senador Pompeu e General Sampaio.

Naquela época uma das formas de difundir o Jiu jitsu e os demais esportes, aconteciam por meio de demonstrações em clubes, praças e instituições civis e militares, e ainda, através de panfletagem nas praças e avenidas da cidade.

Nilo, conhecido como pessoa educadíssima com formação moral irretocável era profundo conhecedor do Jiu jitsu. Naquela época muitos o consideravam uma verdadeira enciclopédia desse esporte. Grande Mestre e professor tinha uma visão superior sobre técnicas e estratégias de luta.

Devido ao seu grande conhecimento, formou uma forte equipe de luta que tinha como principais destaques os seguintes atletas: Jurandir Moura, José Maria Freire, José Candido, José Olavo, Josias, Deca, Cartaxo e o jovem Francisco Vieira e Sá, mais tarde conhecido como Professor Sá. Esta equipe conquistou vitórias  importantes, pois Nilo tinha uma metodologia exigente de treinamento, que fazia os atletas treinar até a exaustão. Após o treinamento, para relaxar, faziam caminhadas e colavam panfletos divulgando a escola.

Na época não existia lutas divididas por peso, idade ou graduação, algo deveras prejudicial a performance dos atletas. A necessidade de provar e testar as habilidades dos lutadores fez Nilo entrar em um confronto desproporcional, pois, enfrentou uma atleta de nome Teles que tinha 118 quilos, contra seus 67 quilos. Nessa luta não havia contagem de pontos e só valeria a finalização. Após, trinta minutos a peleja foi dada por encerrada com a decretação de empate. Uma vitória se analisarmos as diferenças física.

Nilo não resiste à sedução do Judô, que organizado e com o apelo olímpico trás uma nova dimensão ao esporte. Por esse e outros motivos, como a falta de institucionalização do Jiu jitsu e grupos políticos dentro do esporte trabalhando de forma desfavorável, objetivando apenas o interesse de se manter um monopólio, através, da Federação de Pugilismo do Ceará, órgão concentrador da maioria das modalidades de esportes de luta, Nilo migra de modalidade e passa para o Judô.

Nilo trabalha e alavanca o Judô, sua escola produziu grandes nomes e em especial o mestre Milton Morteira, e em sequência Francisco de AssisFrancelino Alves atleta de grande destaque no Judô Cearense e catedrático da Educação Física.

A maioria dos alunos de Nilo o acompanham em direção ao Judô, e nenhum de seus filhos permaneceu no Jiu jitsu.

Palavras do Mestre Milton Moreira em entrevista com o autor.



"Antes do início no judô eu praticava o jiu-jítsu na academia do professor Nilo Veloso, que funcionava na Avenida Duque de Caxias, exatamente na esquina com a Rua Senador Pompeu", lembrou o shihan. Com pouco tempo o aluno Milton chegou à faixa marrom e mostrou suficiente desenvoltura para ensinar, sendo promovido à função de instrutor, assumindo a academia na ausência do professor Veloso. Tudo isso ocorreu na década de 40. Já no início dos anos 50 o judô começou a ser praticado em nosso Estado e na academia do professor Veloso, que também lecionava Educação Física no Colégio Estadual Liceu do Ceará. Aluno aplicado, Milton Moreira foi então incentivado pelo mestre Nilo a trocar de modalidade. E no ano de 1966 o atleta Milton tornou-se o primeiro judoca no Estado promovido a faixa preta, com aprovação da então Federação Cearense de Pugilismo (FCP), entidade à qual o judô era afiliado, por não ter federação própria (MOREIRA, 2012).

 

Um dos atletas de Nilo se recusa a abandonar a prática do Jiu jitsu e da inicio a um grande desafio: tornar a modalidade cearense uma potência Nacional.

O jovem Francisco Vieira e Sá discípulo de Nilo Veloso foi quem tomou para si a responsabilidade de transmitir para as futuras gerações do Ceará os conhecimentos do Jiu jitsu, pois, manteve-se sempre fiel a essa grande arte marcial. Assim o ciclo se complementou desde a chegada de Maeda, oriundo do Japão, que ensinou aos irmãos Gracie, em Belém, no Pará, estes por sua vez através de George Gracie, que transmitiu a Nilo Weber Veloso, em Salvador, na Bahia, e, que por fim, ensinou ao Professor Sá, em Fortaleza, no Ceará.

 

VIº CAPITULO

 FRANCISCO VIEIRA E SÁ – PROF.SÁ

 

Professor Sá.

 

Os relatos citados no texto a seguir foram extraídos de diversas entrevistas com Francisco Vieira e Sá, nos anos de 2011.

Aos dezessete de dezembro de 1935 nasce no município de Senador Pompeu, interior central do Ceará precisamente na Fazenda Jacoca, o filho caçula de uma família de cinco irmãos, batizado com o nome de Francisco Vieira e Sá, filho de Pedro Laurindo Vieira e Sá Maria Adelina Vieira e Sá, conhecido no Jiu jitsu como Professor Sá.

Embora sua família fosse bem conceituada tendo posses e bens, o casamento de dois primos gerou desconforto na família e a falta de apoio, fez com que Pedro e sua esposa voltassem para a vida no campo, tornando-se agricultores. 

O filho mais novo Francisco Vieira e Sá logo aos cinco anos recebe um presente inusitado de seu pai, era uma enxada, coisa comum nas famílias de agricultores do nordeste. Trabalhava de forma incansável na roça para colaborar com a família. Aos sete anos sua mãe, cansada de ver as mãos do caçula sangrando, disse, “meu filho não vai mais a roça! Ele vai para a cidade trabalhar e estudar!”. Bem novo ainda, se tornou auxiliar em um armazém na cidade de Senador Pompeu. Em seguida balconista. Aos nove, já tendo a confiança do proprietário, abria a loja.

Aos, quatorze anos teve o primeiro contato com o Jiu jitsu e a Defesa Pessoal, por meio da revista “O Cruzeiro”. Na revista, Sá aprofundava-se em suas páginas com grande fascínio, as aulas e matérias publicadas pelo renomado Professor Hélio Gracie. Na época não existiam escolas de Jiu jitsu ao seu alcance e repetia as posições publicadas na revista com os amigos.

Aos dezesseis anos segue para a capital de Pernambuco, Recife, pois oferecia maiores oportunidades. Foi de encontro ao irmão mais velho, Valdemar Sá, trabalhou no comércio e posteriormente na Policia de Pernambuco, como oficial.

Em Recife procurou academias de artes maciais, mas se matriculou em uma escola de boxe e treinava com toda dedicação. Em seguida, já com idade de prestar serviço militar, se alistou na Força Aérea Brasileira. Nessa ocasião conhece e prática o Jiu jitsu japonês, com o Mestre Takeo Yano.

 Recife era uma das maiores praças do Brasil, se tratando de lutas, e em especial, o Vale Tudo, nome dado ao confronto de lutadores de diversas artes marciais, que ao final desse século passou a ser denominado Mix Martial Arts (MMA). Francisco Vieira e Sá passa a competir no Vale Tudo e se destaca no cenário marcial, fazendo uma das lutas de maior cotação na época, contra o lutador Lucena, que foi desclassificado por golpe desleal. Sá recebeu a bolsa. Uma nova luta não aconteceu.

Em 1955, Sá retorna ao Ceará, pois foi transferido do Quartel General para a Base Aérea de Fortaleza. Em uma demonstração no quartel da Base, conhece o Professor Nilo Veloso e recebe o convite para treinar em sua academia.

O Professor Sá se dedica de forma profissional e obtém mérito e reconhecimento da comunidade desportiva. No período compreendido entre 1955 a 1973 desenvolve sua carreira de atleta de Jiu jitsu e Vale Tudo, conquistando um currículo invejável, onde protagonizou combates memoráveis contra excelentes lutadores.

Em 1956, o Professor Sá (76 kg) da Academia Nilo Veloso luta contra Paulão (118 kg) da Academia do Professor Herondino. Essa foi sua primeira grande luta de Jiu jitsu, seu resultado foi um empate.

Em 1958, Nilo Veloso com as demais escolas de Jiu jitsu, promove o campeonato cearense de Jiu jitsu na AABB. O Professor Sá sagra-se campeão de sua categoria vencendo na final o lutador Raimundo Nazário.

Em 1958, o Professor Sá faz duas lutas de Jiu jitsu com intervalo de um mês na quadra da famosa FÊNIX CAIXERAL, contra o lutador do Corpo de Bombeiros Macedo. A primeira foi empate e a segunda venceu com certa facilidade.

Em 1960, enfrenta o campeão do ano anterior, o lutador Abdias Queiroz, em evento realizado no Parque das Crianças no Centro de Fortaleza. Sá vence aos dois minutos com chave de braço.

Ainda em 1960, sagra-se Campeão Cearense de Luta Livre enfrentando o lutador Gipão, na FÊNIX CAIXERAL. Sá vence aos dois minutos do segundo round.

Em 1964, nasce em Fortaleza, Francisco Carlos Pinto Sá (Sazinho) primeiro filho homem de Francisco Vieira e Sá (Professor Sá).

Em 1966, Sá funda sua primeira escola intitulada Central Ringue Clube, localizada na Rua Sena Madureira, Altos, Centro e próximo ao Parque das Crianças, onde hoje se encontra a Delegacia Geral de Policia Civil do Estado do Ceará. A proposta era formar uma equipe de competidores nas modalidadesJiu jitsu de quimono e Vale Tudo, além de ensinar crianças, empresários, advogados, médicos e demais trabalhadores a arte da Defesa Pessoal. Nesse momento começa a escola que vem dar origem a 99% das existentes no estado do Ceará.

Em 1966, enfrenta no ginásio da AABB em Senador Pompeu/Ceará o lutador Louro.

Em 1968, Sá muda a sede de sua escola para o Clube Social América, localizado a Rua Rodrigues Junior esquina com Av. Dom Manuel, no Centro da cidade. O Professor Sá se torna Diretor de Esportes de Luta do América, onde promove em sua quadra de esportes diversos eventos de lutas profissionais e amadoras, nas modalidades de Vale Tudo, Jiu jitsu, dentre outras.

Em 1969 promove uma grande noitada de lutas em Palmácia, no Ceará. Isso fazia parte da estratégia de divulgar as lutas e em especial mostrar a eficiência do Jiu jitsu.

Em 1969, enfrenta no Parque das Crianças o instrutor da Academia Gracie, Barreto Manguete. Luta onde o Professor Sá fez grande pontuação, mas a luta só seria decida por finalização, o que não aconteceu, pois, havia tempo de trinta minutos de duração. Ao final foi decretado empate.

Em 1970, a sede da academia se transfere para a Rua Liberato Barroso nº 186, Centro de Fortaleza, permanecendo por 15 anos. O trabalho se estendeu de forma especial, pois, a escola tinha sempre muitos alunos e atletas competidores, obtendo grandes resultados em desafios de Vale Tudo e competições da modalidade.

Em 1973, Sá enfrenta o Capitão da Marinha e fuzileiro Naval Pedro Raxa, esse genro do Brigadeiro José Macedo da Força Aérea Brasileira. O resultado foi empate, pois, naquela época o Jiu jitsu priorizava apenas a finalização, embora o domínio do Professor Sá foi evidente para todos os presentes.

Em 1983, mais uma mudança, a Academia Professor Sá se estabelece na Rua 24 de maio, no Centro. Era uma escola de grande porte, além do Jiujitsu, contava com muitas modalidades de lutas marciais, como, o Boxe, Kung Fu, Karate, Capoeira, e ainda com um setor de musculação e ginástica, além de massagem e sauna, havia um Ringue montado, áreas de tatames e terraço. Na verdade, era um Centro de Treinamento onde foram produzidos grandes nomes do esporte de lutas no Ceará.

Em 1985, Sá transfere a seda da academia para a Rua Guilherme Rocha, Praça do Liceu no bairro de Jacarecanga. No mesmo ano inaugura mais uma filial, esta localizada na Av. Tristão Gonçalves, Altos, no Centro de Fortaleza.

Em 1992, a escola muda-se para a Av. Santos Dumont, nº 1666, na Aldeota. Essa década foi considerada a de maior crescimento do Jiu jitsucearense e mundial, pela visibilidade do recém-criado Ultimate Fight Championship (UFC), evento de repercussão mundial, que envolvia disputa de diversos estilos de lutas. Royce Gracie mostrou para o mundo a eficiência da luta, pois, foi o campeão em varias edições. A academia permanece neste local por dezessete anos.

Hoje a escola do professor Sá está espalhada em diversos locais da capital e interior, além de estados vizinhos e nos Estados Unidos da América. A sede atual desde 2009 se localiza no clube Náutico Atlético Cearense na Av. Beira Mar.

A família Sá continuou o legado do Mestre Sá, que teve seis filhos, Socorrita Sá, Sazinho Sá, Josenias Sá, Guybson Sá, Robson Sá, Miriam Sá e Moises Sá. Os homens, todos, praticam Jiu jitsu desde crianças.

 

5.2.3.1 Os filhos do Professor Sá e seu legado

 

Sazinho Sá, o filho mais velho, pratica a arte desde os 15 anos é instrutor e seguidor fiel dos ensinamentos do Professor Sá. Sazinho, faixa preta 6º grau é graduado em Educação Física e Bacharel em Direto. Dirige a escola Sá, com uma nova sigla, que representa o crescimento da família Sá: SAS TEAM, hoje, representada em vários lugares do Ceará, estados vizinhos e Estados Unidos da América. 

No ano de 1986, Francisco Carlos Pinto Sá (Sazinho) e Luiz Geraldo de Miranda Leão Filho, alunos diretos do Professor Sá,  são graduados faixas pretas no Rio de Janeiro pelo Mestre Osvaldo Fadda.

No mesmo ano, Francisco Carlos Pinto Sá (Sazinho) e Luiz Geraldo de Miranda Leão Filho fazem estagio de dois meses treinando e pesquisando oJiu jitsu nas escolas do Mestre Hélio Gracie no Humaitá e Carlson Gracie em Copacabana. Treinaram ainda com Rickson Gracie onde fizeram aulas particulares e coletivas.

Em 1988, Francisco Carlos Pinto Sá (Sazinho) representou o Jiu jitsu contra Gilvan Sales em uma luta de Vale Tudo, ocorrida no Ginásio PauloSarasate. (Sazinho venceu esse lutador aos quatro minutos por finalização).

No ano de 1997, Francisco Carlos Pinto Sá (Sazinho) se sagra campeão brasileiro na faixa preta máster. O primeiro faixa preta cearense a conquistar esse titulo (CBJJ, 2012). No ano seguinte sagra-se sagra bi - campeão brasileiro na faixa preta máster.

Em 1998, Francisco Carlos Pinto Sá (Sazinho) se sagra campeão Pan-americano na faixa preta máster, título conquistado no Hawai/USA (CBJJ, 2012).

Guybson Costa e Sá atualmente graduado Faixa Preta 1° grau. Nasceu em 20 de julho de 1988. Criado na doutrina da família Sá, foi morar com o seu irmão Sazinho, aos onze anos, na Academia da Santos Dumont, menino hiperativo precisava de muita atividade para saciar e liberar sua energia. Atualmente leva dignamente o nome da família nos Estados Unidos, conjuntamente com os professores faixas pretas de grande destaque, são os campeões Daniel Beleza, Ademir Oliveira e Daniel Pires.

A trajetória competitiva de Guybson Costa e Sá honra a tradição da família Sá, pois, tem um extenso currículo somando vários títulos importantes no cenário nacional e internacional, no MMA e no Jiu jitsu. No Brasil conquistou títulos expressivos no Jiu jitsu, dentre eles: 2003 a 2009 tornou-se Campeão Cearense em todos os anos (FJJOCE), em 2007 e 2009, sagrou-se Bicampeão Mundial nas faixas Roxa/Marrom (CBJJO/CBJJE), em 2006 e 2007, torna-se Bicampeão Brasileiro nas faixas Azul/Roxa (CBJJO), em 2009, foi Campeão Rio Open Internacional, na faixa marrom, vencendo duas categorias, Pesado e Absoluto (CBJJ), em 2008 foi Vice Campeão Pan-americano na faixa marrom - (CBJJE) em 2008, foi Vice Campeão Brasileiro na faixa marrom (CBJJ).

Guybson Costa e Sá gradou-se faixa preta em 27 de julho de 2009, por mérito competitivo. Diplomado pelo pai, o Professor Sá, e seu irmão mais velho, Sazinho. Logo em seguida embarcou para os Estados Unidos das América.

Guybson, ao chegar aos USA, residiu na cidade de Syracuse no Estado de New York por três anos, atualmente mora em Columbia capital do estado de Carolina do Sul.

Sua trajetória competitiva no Jiu jitsu continua a somar títulos importantes: 2010 e 2011 sagrou-se Bicampeão Estadual no Arizona/USA, em 2011 e 2012 se torna Bicampeão em Atlanta/USA; 2011, Campeão do Northeast Grappling Challenger, em New York/USA, em 2012, foi Campeão em Nashville/USA ainda em 2012, conquista o Campeonato Estadual de South Carolina/USA.

Os outros filhos do Professor Sá são: Robson Sá, faixa roxa que já vem se destacado no cenário local, com algumas conquistas em campeonatos estaduais e regionais, além disso, ainda ministra aulas de Jiu jitsu na Faculdade Católica do Ceará e Clube do Náutico Atlético Cearense; Josenias Sá, ainda iniciante; e, Moises Sá, a nova promessa, pois, ainda tem oito meses. As filhas Socorrita Sá e Mirian Sá não seguiram o Jiu jitsu diretamente, mas sempre estiveram apoiando seus irmãos.